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O Tatamirô Grupo de Poesia é um grupo amapaense de declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovocovisuais. Criado em Abril de 2009, o Grupo nasceu do desejo de dizer Poesia às pessoas. De colocar a voz a serviço da Poesia. De falar as coisas do mundo de forma diferente.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poética do duende

para o poeta luiz gustavo pires


revendo Goya
& seus tufões-cinzas
pelo olhar de Lorca
entendo bem
os seus  duendes

entendo
que se movem
rudes   abruptos  latentes
dentro
das coisas
e da gente

entendo
que tocam, cantam e dançam
as vísceras da morte
às alvíssaras
da  vida

entendo
que se vestem
de branco  negro  vermelho:
leitoso rio, carvão, sangue espesso
e ainda o limo de todo mistério

entendo
que sob o festim
das químicas
comem sua própria pele
estilhaços de vidro
excessivo
alimento

entendo
que se arrastam
sobre o chão
com suas asas de faca oxidada
suas vozes de sombra
suas gulas de sal

entendo
que espremam limões
na madrugada
para que nenhum vivo
ou morto traga
sob seu pulso
o gosto da menina pobre
coberta de musgo

revendo Goya
& seus tufões-cinzas
pelo olhar de Lorca
entendo bem
a sua recusa:
das luzes do anjo
das formas da musa

herbert emanuel


Escrevi este poema a partir da leitura do belo escrito de Lorca em que ele pensa poeticamente "o espírito oculto da dolorida Espanha" a partir da imagem do duende, comparando e estabelecendo diferenças entre esta e as imagens do anjo e da musa.  A presença do duende como metáfora de uma força pulsante  criadora  presente na arte espanhola  é, segundo Lorca, dominante, muito mais do que as imagens do anjo ou da musa.  Ou como diz o poeta andaluz: "Anjo e musa vêm de fora; o anjo dá luzes e a musa dá formas (Hesíodo aprendeu com elas).  Pão de ouro ou prega de túnicas, o poeta recebe normas no bosquezinho de lauréis.  Ao contrário, o duende tem que ser despertado nas últimas moradas do sangue." Ele vem por baixo, pela planta dos pés, diz ainda Lorca. Esse texto do Lorca me fez revisitar as pinturas negras do Goya, que são maravilhosamente assombrosas. E saiu este poema, que intitulei "Poética do duende", e quis dedicá-lo ao poeta Luiz Carlos Pires, porque acho que a sua poesia está entranhada de duende de que fala Lorca.



Excepcional o texto do Lorca, você pode encontrá-lo no site da revista modo de usar (excelente revista de poesia):
http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/04/teoria-e-pratica-do-duende-de-federico.html

Vale a pena ver as pinturas de Goya:
http://www.taringa.net/posts/arte/6841793/Las-Pinturas-Negras-de-Goya-Completas---Arte-Sublime.html

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