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O Tatamirô Grupo de Poesia é um grupo amapaense de declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovocovisuais. Criado em Abril de 2009, o Grupo nasceu do desejo de dizer Poesia às pessoas. De colocar a voz a serviço da Poesia. De falar as coisas do mundo de forma diferente.

domingo, 25 de maio de 2014

"AMAR É UM DESERTO E SEUS TEMORES"

por Herbert e Adriana


A arte e o amor possuem algo em comum: ambos são campos minados. A qualquer momento explodem-se sentidos insuspeitáveis. Talvez por isso não se possa pisá-los de qualquer jeito, desatentamente. Um pouco de cuidado, prudência, convém. Entretanto, o mais importante, é correr o risco.
A música Oceano, de Djavan, permite-nos uma reflexão interessante sobre o perigoso e misterioso território das relações amorosas. O amor é retratado a partir de uma abordagem poética e nela podemos perceber todas as implicações decorrentes de um relacionamento amoroso: a solidão, a presença, a ausência, o desejo, a espera, a felicidade, a tristeza...
Assim que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim
Enfim, de tudo o que há na terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem você chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri
Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar, me dá teu calor
Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim, e eu, oceano
Me esqueço que amar é quase uma dor
Só sei viver se for por você!

Três momentos são muito importantes para uma possível leitura desta música. Logo no início temos o conhecimento da atmosfera amorosa em que o autor está envolvido: é alguém completamente apaixonado, transbordando de paixão, mas que não consegue “desaguar” (dividir, partilhar seu amor) porque lhe falta a outra metade, ou porque não a tem mais, ou porque é possessivo demais, donatário de uma “capitania amorosa” (marítima?), prestes a ser saqueada. Então, como um mar cheio que não tem onde repousar, desaguar e que, portanto, invade, inunda, destrói, o poeta se sente desolado, perdido, o mundo desaba sobre ele:

"assim que o dia amanheceu
lá no mar alto da paixão
dava pra ver o tempo ruir"

O segundo momento é quando o narrador utiliza-se da bela metáfora: “amar é um deserto e seus temores”, pois é  através dela que ele nos define sua concepção sobre este sentimento.  O amor é como um deserto: ambíguo, misterioso, nos causa medos e delírios, se converte em oásis; mas é devastador, carente e imprevisível. Percebe-se aqui pitadas de platonismo nesta concepção do amor – sua matriz é a carência.

O terceiro momento é quando ele passa de deserto a oceano. É exatamente neste dois contrapontos que o poeta vai fundamentar seu tema. O deserto simboliza a hostilidade, lugar transitivo, de passagem, a falta, a secura, a aridez e a avidez, por outro lado, quando o amor é oceano, ele é cheio, é pleno, é rico, é transbordante, exatamente o que acontece se ela, a amada, retorna feito rio que deságua no mar, como o mar que faz o oceano, e, aí nesses momentos, o amor é uma fina dor que chegamos quase a esquecê-la enquanto tal:

"você deságua em mim

e eu oceano
esqueço que amar é quase uma dor"


Os três momentos a que nos referimos acima são, na verdade, três formas diferentes de dizer que o poeta não pode mais viver sem o amor de sua amada. E o andamento da canção culmina com sua declaração final:
                       
      “só sei viver
       se for por você”

Ele se dirige às pessoas que, como ele, sofrem de uma perda amorosa, ou que cavalgam na dor e na tristeza de não serem correspondidas, ou àquelas que vivem esperando, e essa espera faz doer mais porque a solidão aumenta:
                       
               "e enfim de tudo que há na terra
            não há nada em lugar nenhum
              que vá crescer sem você chegar
longe de ti tudo parou
          ninguém sabe o que eu sofri”

A música nos faz refletir sobre este sentimento inexplicável, que só os poetas conseguem definir satisfatoriamente. Quando lemos um belo poema sobre o amor, ou quando escutamos uma música como esta de Djavan, nos sentimos arrebatados, porque é como se finalmente tivéssemos encontrado as palavras certas, era assim que queríamos dizer. E, às vezes, nos deparamos com um espelho: o poema ou a música acaba retratando-nos, trazendo-nos lembranças, relatando nossas experiências e possibilitando novas, potencializando, sobretudo, nossas vidas. É por isso que a arte tanto quanto o amor são imprescindíveis. E sempre valerá a pena correr o risco.

                           



sábado, 17 de maio de 2014

Encontro: Gavin Andrews & Jiddu Saldanha

Organizado por Thayse Panda

O Tatamirô Grupo de Poesia acredita, cada vez mais, que o trabalho em conjunto, a conspiração e a união de diversas artes é o que faz a diferença. Por isso, convidamos Clive Gavin Andrews e Jiddu Saldanha para uma parceria. Suas biografias afetivas foram feitas, respectivamente, pela artista circense Kelita Morena e o poeta Herbert Emanuel.



Clive Gavin Andrews (SIN)



Gavin por Kelita Morena:  Gavin veio de longe, mas parece que é daqui mesmo. Veio por amor e aqui ficou, bom, mais ou menos. Mente livre, corpo livre, ele vive por aí, vivendo. Ele é assim, acorda de manhã nem sempre no mesmo horário, abre a porta lateral e vê o movimento, aí caminha, vai ao vizinho tomar um café, se embala na rede e conta as novas. Aí, conversa com os cachorros e vai trabalhar, com seu capacete amarelo inconfundível e sua jaqueta. Vai de moto, porque o carro nunca funciona. Pra onde ele vai? Depende... Pode ser bem aqui, ou no estrangeiro, mas parece que ele tá sempre lá, com seu olhar em todo lugar. O seu trabalho é sua arte, sua vida. Está sempre com suas lentes e seu equipamento, que já fazem parte dele. São a sua extensão, sempre juntos, como o seu relógio. Ele trabalha em um tempo próprio e um pensamento único, sempre no momento exato. Se você perguntar, ele responde, te explica, no seu idioma. Com aquela simplicidade em que vive sua grandeza de profissional, de Ser. É lindo, ver, conviver. Suas imagens estão tomadas de alma. É que você vê a essência, ele retrata, comunica. Pra ele, pro trabalho, pros amigos, ele é assim, no seu jeito de fazer parte do que ama.É assim, vive com amor.Cada parte do dia e da vida, se dedica, Tem um abraço bom e um sorriso fácil e sincero, bem grande, como ele, sua arte, seu coração e o espaço que ocupa no nosso. E ele canta. Mais Querido Amigo!

Jiddu Saldanha (PR)
cinema possível


Jiddu por Herbert Emanuel: Mímico, ator, diretor, poeta, artista plástico, contador de história, Jiddu Saldanha goza do irreparável privilégio, como diria Baudelaire, de ser ele mesmo e outros. Digo que Jiddu é multidão, um verdadeiro agenciador, um eufórico agitador de sonhos coletivos. Nossa amizade remonta à década de 90 do século passado, quando o conheci em Nova Prata (RS), no I Congresso Brasileiro de Poetas, organizado pelo poeta Ademir Bacca. Foi amizade à primeira vista, e, desde então, não nos largamos mais. Somos parceiros em vários projetos, de  poesia, de cinema e de falar besteira um pro outro.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poética do duende

para o poeta luiz gustavo pires


revendo Goya
& seus tufões-cinzas
pelo olhar de Lorca
entendo bem
os seus  duendes

entendo
que se movem
rudes   abruptos  latentes
dentro
das coisas
e da gente

entendo
que tocam, cantam e dançam
as vísceras da morte
às alvíssaras
da  vida

entendo
que se vestem
de branco  negro  vermelho:
leitoso rio, carvão, sangue espesso
e ainda o limo de todo mistério

entendo
que sob o festim
das químicas
comem sua própria pele
estilhaços de vidro
excessivo
alimento

entendo
que se arrastam
sobre o chão
com suas asas de faca oxidada
suas vozes de sombra
suas gulas de sal

entendo
que espremam limões
na madrugada
para que nenhum vivo
ou morto traga
sob seu pulso
o gosto da menina pobre
coberta de musgo

revendo Goya
& seus tufões-cinzas
pelo olhar de Lorca
entendo bem
a sua recusa:
das luzes do anjo
das formas da musa

herbert emanuel


Escrevi este poema a partir da leitura do belo escrito de Lorca em que ele pensa poeticamente "o espírito oculto da dolorida Espanha" a partir da imagem do duende, comparando e estabelecendo diferenças entre esta e as imagens do anjo e da musa.  A presença do duende como metáfora de uma força pulsante  criadora  presente na arte espanhola  é, segundo Lorca, dominante, muito mais do que as imagens do anjo ou da musa.  Ou como diz o poeta andaluz: "Anjo e musa vêm de fora; o anjo dá luzes e a musa dá formas (Hesíodo aprendeu com elas).  Pão de ouro ou prega de túnicas, o poeta recebe normas no bosquezinho de lauréis.  Ao contrário, o duende tem que ser despertado nas últimas moradas do sangue." Ele vem por baixo, pela planta dos pés, diz ainda Lorca. Esse texto do Lorca me fez revisitar as pinturas negras do Goya, que são maravilhosamente assombrosas. E saiu este poema, que intitulei "Poética do duende", e quis dedicá-lo ao poeta Luiz Carlos Pires, porque acho que a sua poesia está entranhada de duende de que fala Lorca.



Excepcional o texto do Lorca, você pode encontrá-lo no site da revista modo de usar (excelente revista de poesia):
http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/04/teoria-e-pratica-do-duende-de-federico.html

Vale a pena ver as pinturas de Goya:
http://www.taringa.net/posts/arte/6841793/Las-Pinturas-Negras-de-Goya-Completas---Arte-Sublime.html