Quem sou eu

Minha foto
O Tatamirô Grupo de Poesia é um grupo amapaense de declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovocovisuais. Criado em Abril de 2009, o Grupo nasceu do desejo de dizer Poesia às pessoas. De colocar a voz a serviço da Poesia. De falar as coisas do mundo de forma diferente.

sexta-feira, 23 de março de 2012

EU e ELE



Ele palmilhava meus pés com hálito de chuva. Todas as palavras estavam caladas. Zuniam sílabas imprecisas. Eu, freneticamente imóvel as tragava e as devolvia a panos que aconselhavam tórrida escravidão. É como se me adivinhasse logo dividida em hemisférios. Isso me fazia transpirar uma resina inflamável e incontida. Ele, inclemente, me subia, aos poucos, ramificando pernas. Ali também cultivava chuva. Aquietei-me incolor. Mais rápido do que imaginei, a língua anelou-me as hastes. E enquanto ele me escavava com os lábios eu germinava o falo bem na palma da minha mão.

Prolonguei a respiração o quanto pude. Esse intervalo foi o suficiente para que eu levitasse invisível aos olhos de meu homem. Dali também bebia vagarosamente cada um de seus gestos. Atada a volúpia, logo me certifiquei que nenhum de meus cálculos era exato. Constatei também que aprendemos – eu e ele – muito com os animais não hierárquicos. Não havia macho e não havia fêmea. Só nós, nus em lã, feito forças armadas convulsivas e desordenadas. Depois voltei ao rijo esconderijo de nossos corpos.

Movíamo-nos em ziguezagues repetidos e tudo era contrário ao direito, ainda bem. Nossa ideia de justiça era sua própria abstração. Também éramos imortais naquele instante. Derivados do extinto, comprimíamos, um a um, os mais remotos poros e, assim, passeávamos famélicos e tesos.

Todas as mensagens estavam postas. Acessamo-nos. Medievais. Inexatos.

Do fole veio o sopro. A cavidade ventilada precipitou-me ao abismo dele. Latejaram os rios. Gradualmente, pernoitei, enquanto ele palmilhava meus pés com hálito de chuva.

Ruben Bemerguy

quarta-feira, 14 de março de 2012

A ave pousa entre nós: Íbis Amazonas, o poeta




Poeta Íbis Amazonas, o primeiro à esquerda


        Ibis se escreve de vários pássaros: ibis ermitão, do norte da África; ibis vermelho, das Américas; ibis sagrado dos antigos egipcios, representado nos murais pintados nos túmulos e templos como uma espécie de semideus: metade homem, metade pássaro.Dos confins da África ao topo da Amazônia, nosso Ibis também se escreve de pássaro:

me toco
mas não sinto a pele
sobre os ossos
eu sou apenas tudo
que sobrou
do pássaro

uma pena sobre o asfalto. 1

Íbis Amazonas nasceu em 20 de Junho de 1965, na antiga base aérea do município de Amapá – estado do Amapá. A localidade é distante da capital e está situada bem no meio da mata que, já naquela época, era um cemitério na floresta. Íbis nasceu impregnado dessas forças anímicas da natureza. Último filho de uma família numerosa, a mãe, Alba, escolheu o nome retirado de um romance, onde a personagem íbis era um ser de muita luz. O pai completou com Amazonas por causa do rio, para dar dimensão ímpar ao pequeno ser. Anos mais tarde, o punho do poeta revelou a grandeza desse nascimento.

“Com bizarrosdentes e olhoserpente
o filhoflorferida
de uma alba clara  manhã
poematizada
a inútil imensidão
dessas selvas
selvagens.”2

Aos cinco anos deixou a “Selva Selvagem” e veio morar na capital. Por pouco tempo, pois, aos sete, foi enviado à cidade de Belém para estudar. Ficou dos 12 aos 13 anos em São Paulo e dos 17 aos 18 residiu em Belo Horizonte. De volta a Belém, ingressou na UFPA para cursar Engenharia Química. Em pouco tempo mudou de curso e se transferiu para Geologia, experimentando-o também por breve temporada. Em seguida, abandonou definitivamente a vida acadêmica e se dedicou exclusivamente a sua bem-amada poesia. Retornou ao velho ninho e passou a morar novamente no município de Amapá. Lá construiu seu primeiro agrupamento de poemas. São 20 fragmentos imbuídos de Charles Baudelaire. O ano é 1988.
Em 1991, devidamente entregue ao duro ofício de lapidar palavras, Íbis compôs o TAES ALMANJARRAS, pequeno livro de inúmeras referências e construções. É um passeio pela Amazônia, mesclado de influências modernas: Pound, Joyce, certamente eram suas leituras daquele momento.
O trabalho seguinte não se encontra datado. Chama-se SEXLUCIFELINO – 10 poemas num sonho alucinado. São poemas eróticos, onde a fêmea destila seus encantos. São textos secos e ao mesmo tempo plenos de lirismo.

“Faço versos
de sonhos
in
sanos

e c
a
i
o
sobre seu corpo
como
as avencas
no
chão” 3

No agrupamento intitulado HYPNOS, encontram-se 9 poemas que foram bastante aproveitados na única inserção da sua escrita fora da poesia. É um texto para teatro denominado Hiléia Desvairada, escrito em parceria com o poeta Herbert Emanuel. Em 1992 vieram dois agrupamentos divididos em dois volumes: LESMA LUNARES e LESMA LUNARES – Parte II. Em oposição ao HYPNOS, onde os textos são longos, Íbis passa a adotar uma linguagem cada vez mais concisa, mais enxuta. Entretanto, os poemas parecem plenos do olhar que recria as imagens recebidas.

“do oco escuro
borboletas brotam do cigarro
e a cigarra encantada estoura
seus pulmões de tanto
rir” 4

A parte das seleções arrumadas em blocos com seus respectivos títulos, Íbis escreveu poemas esparsos, alguns publicados em jornais, outros enviados a amigos. Em 1994, seu último agrupamento chama-se DURO ARTEFATO. O título já revela a crise, a dificuldade em cuidar dessa tarefa escolhida ou imposta pelos deuses.

“A poesia não ensina
amar
as pedras são mais úteis
que as flores” 5

E quem era íbis Amazonas? Duas faces ele possuía. Uma para fora, para as multidões, as quais não fazia questão de agradar; e outra aos pouquíssimos queridos, para os quais deixava à mostra uma meiguice sedutora. É bastante provável que essa ave-rio não tivesse consciência dessa sutil modificação, pois que para a maioria ele estava sempre inacessível. Mas, aos poucos reservados, era suave e descontraído e a esses presenteava com sua gargalhada sonora inconfundível.
Quando o conheci, em 1984, ele ainda guardava a postura do tenista, campeão de disputadas partidas nas únicas quadras de tênis localizadas na residência oficial do governador. Porém, a inquietação já pesava em seu semblante e a sede das palavras era marcada por leituras vorazes. Os poetas digeridos por ele eram ritualisticamente canibalizados e transformados em ressonâncias dentro da sua escrita. Não foram meras referências. Eram jantares e almoços com os clássicos, os malditos, os românticos, os concretos, acompanhados de “muito vinho vagabundo” 6
A história de sua pequena e significativa obra – ao todo não chegam a 100 poemas – esteve intimamente entrelaçada com suas escolhas pessoais, que a suspeita de muitos, não foi uma máscara para criar o estereotipo do poeta maldito. O Íbis Amazonas daquele momento estava tão marcado por sensações inumanas, que tentar classificá-las seria diminuí-las e empobrecê-las. O encontro com essa singular visceralidade pode ser feito por meio da leitura de seus poemas, no manuseio de sua escrita, construída em apenas seis anos. De 1988 – primeiro agrupamento de poemas – até 1994 – últimos registros encontrados, muitos fatos ocorreram na sua vida: casamento, filhos, acidente grave no qual perdeu parte de massa encefálica; internação em uma comunidade, no Rio de Janeiro, para curar sua dependência de substâncias tóxicas.
Para quem recebeu o nome Íbis Amazonas, duas palavras tão transbordantes de significados, certamente não passaria a existência despercebido. E quem sabe – talvez somente as parcas poderão revelar – o que ainda lhe reserva o destino. Ele atualmente mora em Belo Horizonte, onde busca lições iniciantes para alçar um novo vôo, ou como todo rio, ir ao encontro do mar... 
                    Zeniude Pereira*
                                                               

NOTAS

1.  AMAZONAS, Ibis. Taes Almajarras.Macapá, 1991 (texto datilo-
      grafado).
2.  Idem.
3.  AMAZONAS, Ibis. Sexlucifelino. Macapá, s/d  (texto datilo-
      grafado).
4.  ______________. Lesma-Lunares. Macapá, 1992 (texto datilo-
      grafado).
5.  ______________. Duro Artefato. Macapá, 1994 (texto  manus-
      crito).
6.  Expressão bastante freqüente nos seus poemas.

* Zeniude Prereira foi uma das produtoras teatrais que mais lutou pela arte cênica no Amapá. 
. Faleceu em 2007. Apaixonada pelo teatro, deixou várias sementes plantadas nesta terra,
e vive no coração daqueles que a admiram.

Ibis Amazonas, poeta amapaense, nascido em 1964, dono de uma poética singular, influenciado por grandes poetas nacionais e estrangeiros, sua voz transcende os bairrismos e regionalismos muito frequentes na poesia amapaense.