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O Tatamirô Grupo de Poesia é um grupo amapaense de declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovocovisuais. Criado em Abril de 2009, o Grupo nasceu do desejo de dizer Poesia às pessoas. De colocar a voz a serviço da Poesia. De falar as coisas do mundo de forma diferente.

domingo, 4 de dezembro de 2016

CIDADE À CONTRALUZ, o curta-metragem

O poema “Cidade à Contraluz” escrito a quatro mãos pelos poetas Herbert Emanuel (AP) e Jiddu Saldanha (PR) ganha versão para o cinema no curta homônimo dirigido pelo poeta e também cineasta Jiddu Saldanha, em parceria com Escola de Cinema Darcy Ribeiro e o Grupo Teatro Trupiniquim, ambos do Rio de Janeiro. “Cidade à Contraluz” é filme do projeto Cinema Possível que integra a linguagem do cinema à literatura, ao teatro e às artes visuais. Finalizado em 2014, o curta-metragem será exibido, em Macapá, compondo a Mostra Quintessência da 13ª edição do FIM (Festival Imagem-Movimento), em 07/12/2016, às 19h, no Centro de Difusão Cultural João Batista de Azevedo Picanço (Av. FAB, 86, Centro)


Para o poeta do Amapá, Herbert Emanuel Oliveira, o filme é uma extensão da palavra poética: “nos causa uma alegria radiante ver um poema que pensamos com palavras se materializar, também, como imagem-movimento; com certeza, acrescenta uma potência a mais, uma extensão  vigorosa à parceria. Outra constatação é a de que as nossas cidades, sejam as que nascemos ou as que inventamos, são possibilidades a serem exploradas de todas as formas artísticas. ”



 Assistido em outros cantos do país, formadores de opinião manifestaram-se sobre o filme:

“Cidade à Contraluz nos revela imagens vestidas de poesia. O poema, que por si só é belíssimo, é uma parceria de Herbert Emanuel de Oliveira e Jiddu Saldanha, capturado pelas lentes de Jiddu, resultou em formas e trilhas sombreadas de uma cidade/mulher em toda a sua completude. O poema ganha movimento, cor e dramaticidade, transformando-se em um belo filme. ” (Luiz Gustavo Pires – cinéfilo e haijin/RS)




“Jiddu mostra sua visão da cidade: lírica, dramática, tensa, humana, problemática. A voz poética faz parte do todo harmoniosamente. E as imagens deslizam através de uma direção sóbria e criativa. ” (Affonso Romano de Sant’anna – escritor/RJ)


“A poesia transforma-se em luz, cores e som da cidade. Um roteiro muito bem conduzido, com equilíbrio no uso dos elementos básicos, onde tudo está em harmonia, pontuado pela trilha sonora eficiente, que completa tudo. E a cor da roupa da atriz, simbolizando o pulso da vida que percorre, ocupa e desperta a cidade ficou demais... Tenho certeza que será muito bem recebido e apreciado, por onde passar. ” (Se-Gy – poeta e haijin/GO)


Cidade à Contraluz
Poema de Herbert Emanuel & Jiddu Saldanha
Direção: Jiddu Saldanha
Ano: 2014
Duração: 8’48”
Origem: Cabo frio (RJ)
Classificação: Livre
Sinopse: Numa metrópole caótica da América Latina, uma mulher de vermelho, sofisticada mistura suas lembranças com os contrastes e a solidão desta cidade, ao mesmo tempo que busca entender seus próprios sentimentos mais profundos. Enigmática, salta do lúdico para o poético em fração de segundos e libera uma misteriosa sensualidade dramática, como se estivesse à busca de algo mais, talvez um certo inconformismo faz com que ela vague pela cidade, à procura de um sentido, para sua própria existência.


MOSTRA QUINTESSÊNCIA – FIM (Festival Imagem-Movimento – 13ª edição)
Para a Cosmologia, a Quintessência seria um elemento de natureza desconhecida responsável pela expansão acelerada do Universo, um agente provocador de transformações e evolução. No audiovisual, ao adotar o experimental como norte, os realizadores propõem novos desafios a si mesmos e ao espectador. Novas e desconhecidas linguagens surgem do cruzamento das já existentes, indo além das classificações, movimentando a roda imaginária da imagem-movimento.
Data: 07 de dezembro
Local: Centro de Difusão Cultural João Batista de Azevedo Picanço (Av. FAB, 86, Centro)
Duração: 1h18
Horário: 19h25
Classificação: 18 anos
Entrada Franca

www.festivalfim.blogspot.com

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Macapá, rumo às coisas infinitas

A cidade não existe apenas concretamente com seus prédios, praças, avenidas, monumentos, ruas; uma cidade também é sonhada, construída por desejos, pelo imaginário de seus habitantes, artistas, escritores. E, muitas vezes, essa cidade inventada é mais real e pulsante. Quando menos se espera, ela se revela em seus interstícios oníricos por intermédio de uma música, um poema, uma narrativa. É o que a crônica "Infinitozinho" de Heluana Quintas e as colagens das também artistas Tamy Oliveira e Thayse Panda nos proporcionam. Desta forma, o Tatamirô Grupo de Poesia vem celebrar os 258 de nossa cidade. Macapá nos faz sentir como habitantes de um pequeno infinito em que o ponto de partida se confunde com o ponto de chegada. Assim como nós, cada ser nomeado no texto já é um infinito em si mesmo, e esta imagem se expande ainda mais se pensarmos que toda escrita (quando literária) é interminável.











  


Crônica: Heluana Quintas
Colagens: Tamy Oliveira e Thayse Panda
Edição das imagens: Paulo Rocha
Publicação: Adriana Abreu e Herbert Emanuel

domingo, 8 de junho de 2014

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO AMOR

por herbert emanuel

"Constatar o Insuportável: esse grito  serve para alguma coisa: ao me significar que é preciso sair disso, de qualquer maneira, instalo em mim o teatro marcial da Decisão, da Ação, da Saída."
                                       Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso

I - ÍNVIOS SIGNOS DO AMOR:

 À MANEIRA DE ROLAND BARTHES


No livro de Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser”, a personagem Teresa não suportando mais a situação de infidelidade de Tomás, decide partir deixando-lhe um bilhete no qual revela não ser suficientemente forte para aceitar (suportar, sustentar) a leveza do seu (dele) amor.


Amar pesadamente (como Teresa) nos torna fracos, suscetíveis a tudo, frágeis; ficamos à mercê do outro, do que ele faz, do que ele diz, do que ele não faz, não diz. Sempre ele, sempre! Somos raptados (Barthes), capturados, aprisionados pelo outro, pela sua imagem (a imagem do amor), ainda que sejamos nós (eu), o sujeito que ama, o raptor, o que partiu para a conquista, para a captura. Curiosa inversão: “é o objeto raptado que é o verdadeiro sujeito do rapto; o objeto da captura se torna o sujeito do amor; e o sujeito da conquista passa ao posto de objeto amado.” (Barthes).
Ao amarmos de forma pesada, transformamos o outro num signo pesado, isto é, pleno (cheio, denso, transbordante) de significados. Qualquer atitude, fala ou gesto seu está prenhe de sentidos, e cabe àquele que ama interpretar ou decifrar. Transformamo-nos, então, em hermeneutas, filólogos, obstinados intérpretes! E o pior: todos os signos que o outro emite são, por natureza, signos de incerteza, de ambiguidade e, até mesmo, falsos. Por isso, aquele que ama pesadamente é um atormentado, não conhece a paz a não ser momentaneamente, quando acredita (quer dizer: se ilude) ter decifrado alguma coisa ou quando renuncia a toda interpretação (Barthes), aceitando tudo do outro como sendo verdadeiro.
“É curioso o que acontece comigo, te amar assim dessa maneira, desesperado - eu que sempre amei levemente!”. Assim poderia falar um apaixonado (com alguma leitura, pelo visto), reconhecendo em si (no seu amor, quero dizer) a inevitável mutação amorosa, a passagem do leve para o pesado.
Mas o amor comporta essa relação heraclítica entre peso e leveza.


Somos pesados quando queremos possuir, reter o outro a qualquer custo, quando somos “donatários de capitanias”, quando não partilhamos, não dividimos.
Somos leves quando, ao contrário, compartilhamos, dividimos, deixamos o outro voar, partir, fugir, seguir para onde quiser (“devir-Sabina”, “devir-espaçonave”);  quando somos “perfeitos” (só a perfeição aceita partilha, segundo Barthes), quando transgredimos a lei do amor, quando não somos ciumentos.
“Pássaro em fuga, como as amadas de Proust, eu sou; nada esperem de mim que dure eternamente: o que amo, já não amo mais”. Canção de um amor leve, levíssimo!
É impossível, creio, não ocorrer no amor essa dialética, essa tensão permanente entre o pesado e o leve. Seria impossível mesmo? Vejamos, então, esse mesmo tema a partir de uma outra perspectiva.
         
II - “MÁQUINAS SIMBIÓTICAS” X “MÁQUINAS CELIBATÁRIAS”:
CARTOGRAFIAS AMOROSAS
A PARTIR DE
 FÉLIX GUATTARI E SUELY ROLNIK.

A partir desta perspectiva, podemos pensar essa tensão dialética, essa relação entre peso e leveza, como duas formas constitutivas de cartografia amorosa, duas maneiras de amar, dois modos de constituir “territórios amorosos”.
A primeira relação, pesada e possessiva, funciona como uma espécie de “máquina simbiótica”. É aquela relação que diz assim: “sem você, meu amor, eu não sou ninguém”, “você é minha vida”. A nossa literatura musical, do brega à música popular brasileira mais elaborada esteticamente, expressa em demasia este tipo de relação. Vinícius de Moraes, por exemplo.Ela constitui territórios amorosos cujas fronteiras são muito bem vigiadas pelo ciúme, guardião do amor, cujas fronteiras não podem ser ultrapassadas sem uma espécie de salvo-conduto do outro, salvo-conduto temporário, que o obriga a voltar novamente, pois “cada volta tua há de apagar o que esta tua ausência me causou”. Este amor nunca pode transitar livremente; há uma espécie de geopolítica amorosa que o limita: o arraigado familiarismo, a tentativa desesperada de constituir família, ou melhor, um tipo de território familiar: o da solidão a dois, a do “inferno entre quatro paredes”, pra usar uma expressão de Sartre. Este tipo de amor não é alado, pois não possui asas, tampouco é capaz de doá-las. Este tipo de amor leva inexoravelmente à morte, pois, aqui, quem ama mata. Pausa para uma reflexão, talvez um tanto quanto absurda: o final do livro de Milan Kundera culmina com a morte dos dois personagens (Teresa e Tomás) num acidente. Teria sido esta morte simplesmente acidental? O que significaria esta morte? Que tipo de território amoroso eles - Teresa e Tomás - acabaram por constituir? Estas perguntas ficam no ar, para vocês refletirem. Falarei agora da segunda relação.


A segunda relação, leve e transitiva, funciona como uma espécie de “máquina celibatária”. (Estes dois termos que eu utilizo: “máquinas simbióticas” e “máquinas celibatárias”, são de Félix Guattari e do Gilles Deleuze. Foram criados por eles para designar modos de constituição  de territórios do desejo). É aquela relação que diz  assim: “nada dura eternamente: o que amo já não amo mais”, “alguém  quando parte é porque outro  alguém vai  chegar” (Cazuza). Este amor, ao contrário do outro, é extremamente livre, transita permanentemente, desterritorializa, é incapaz de constituir territórios amorosos; não quer, não deseja, não pode fazer isto. É o amor da aventura amorosa, sempre passageira. Amor-espaçonave: ora aqui, ora ali, ora alhures. Voa por todos os lugares, mas não se fixa em nenhum. Todos os lugares: nenhum lugar. Livre para voar, voar, mas incapaz de pousar com mais demora, pois, quando pousa, sua tendência é constituir, de novo, um território amoroso e simbiótico. Esta é a sua contradição: se continuar voando, voando, voando, acabará morrendo por exaustão, de cansaço. Se pousar e fixar território nos moldes simbióticos, morrerá do mesmo jeito, sufocado.
E agora? Se as nossas relações amorosas comportam estas duas cartografias, o amor, ao que parece, tende sempre para um irremediável fracasso, para a morte. O amor seria, então, impossível? Suely Rolnik, num livro escrito por ela, Félix Guattari e outras mãos, intitulado “Cartografia do Desejo” (Ed. Vozes, 1986), nos esboça uma possível outra cartografia. Termino meu texto com uma longa e necessária citação deste livro.  
 “Entramos no cinema e descobrimos, numa cidade do futuro - não distante - que, para além desses dois vetores (“máquinas simbióticas” x “máquinas celibatárias”), delineia-se toda uma experimentação de montagem de outros territórios de desejo. É Ridley Scott que nos introduz a este mundo, em seu filme Blade Runner (“O Caçador de Andróide”, no Brasil). Nele somos apresentados aos “replicantes”, robôs programados para colonizar o espaço. Perfeitas réplicas do homem, eles só não estão equipados para produzir réplicas emocionais (isto só atrapalharia sua livre circulação pelos planetas, indispensável ao cumprimento de sua tarefa). São replicas sim - mas das máquinas celibatárias, em seu máximo aperfeiçoamento.


Mas isto não é assim tão tranqüilo para eles: quando está para expirar seu prazo de existência, rebelam-se. Replicam. No começo do filme, eles acabam de voltar à Terra justamente para subverter esse seu destino. Querem desertar sua condição de desalmados: já pressentem estas faixas de frequência para as quais o homem, seu criador, negou-se deliberadamente a equipá-los. Atacam a empresa de seu criador: querem viver. Mas a vida já não pode ser para eles. Seu destino é fatal! Sua revolta só vingará se contaminar os humanos.
Deckard, um quase não-homem - ser homem, dizem no filme, é ser perseguido (man) ou perseguidor (policeman) e Deckard não é nem um nem outro -será o escolhido, pelos homens, para eliminar os replicantes. Pelos replicantes, para ser contaminado com o recém-descoberto potencial de envolvimento, de generosidade, com a coragem que esse potencial requer para se expandir.
Roy, chefe do bando dos replicantes, em meio a uma luta de vida ou morte com Deckard, o salva, o contamina e morre.


Deckard, primeiro homem quase replicante e Rachael, última replicante quase humana, salvam-se. Apaixonados e amorosos, partem juntos e o filme termina.
Ficamos com a esperança - talvez ingênua - de que eles inventaram outra espécie de amor. Ficamos sonhando com a possibilidade, de . . . uma outra cena? Um outro mito?. . .
Um além dos Ulisses e das Penélopes (“máquinas simbióticas”): um amor tão demasiadamente humano. Montagens desintoxicadas do vício de redução do desejo do mundo a um objeto-pessoa ou a uma pessoa-objeto.
Mas também um além das “máquinas celibatárias”, esse avesso do homem: um amor não tão demasiadamente desumano. Montagens desintoxicadas do vício de proliferação de mundos objetos do desejo - proliferação tão desenfreada que não há mais nem mundo, nem desejo.
Ficamos imaginando um além do homem (humano e/ou desumano), onde campos de intimidade se instaurem. Territórios-pousadas. “Uma certa inocência...” (Op. Cit. p. 290)

Uma nova suavidade... conclui Suely Rolnik. Será possível? 

domingo, 25 de maio de 2014

"AMAR É UM DESERTO E SEUS TEMORES"

por Herbert e Adriana


A arte e o amor possuem algo em comum: ambos são campos minados. A qualquer momento explodem-se sentidos insuspeitáveis. Talvez por isso não se possa pisá-los de qualquer jeito, desatentamente. Um pouco de cuidado, prudência, convém. Entretanto, o mais importante, é correr o risco.
A música Oceano, de Djavan, permite-nos uma reflexão interessante sobre o perigoso e misterioso território das relações amorosas. O amor é retratado a partir de uma abordagem poética e nela podemos perceber todas as implicações decorrentes de um relacionamento amoroso: a solidão, a presença, a ausência, o desejo, a espera, a felicidade, a tristeza...
Assim que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim
Enfim, de tudo o que há na terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem você chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri
Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar, me dá teu calor
Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim, e eu, oceano
Me esqueço que amar é quase uma dor
Só sei viver se for por você!

Três momentos são muito importantes para uma possível leitura desta música. Logo no início temos o conhecimento da atmosfera amorosa em que o autor está envolvido: é alguém completamente apaixonado, transbordando de paixão, mas que não consegue “desaguar” (dividir, partilhar seu amor) porque lhe falta a outra metade, ou porque não a tem mais, ou porque é possessivo demais, donatário de uma “capitania amorosa” (marítima?), prestes a ser saqueada. Então, como um mar cheio que não tem onde repousar, desaguar e que, portanto, invade, inunda, destrói, o poeta se sente desolado, perdido, o mundo desaba sobre ele:

"assim que o dia amanheceu
lá no mar alto da paixão
dava pra ver o tempo ruir"

O segundo momento é quando o narrador utiliza-se da bela metáfora: “amar é um deserto e seus temores”, pois é  através dela que ele nos define sua concepção sobre este sentimento.  O amor é como um deserto: ambíguo, misterioso, nos causa medos e delírios, se converte em oásis; mas é devastador, carente e imprevisível. Percebe-se aqui pitadas de platonismo nesta concepção do amor – sua matriz é a carência.

O terceiro momento é quando ele passa de deserto a oceano. É exatamente neste dois contrapontos que o poeta vai fundamentar seu tema. O deserto simboliza a hostilidade, lugar transitivo, de passagem, a falta, a secura, a aridez e a avidez, por outro lado, quando o amor é oceano, ele é cheio, é pleno, é rico, é transbordante, exatamente o que acontece se ela, a amada, retorna feito rio que deságua no mar, como o mar que faz o oceano, e, aí nesses momentos, o amor é uma fina dor que chegamos quase a esquecê-la enquanto tal:

"você deságua em mim

e eu oceano
esqueço que amar é quase uma dor"


Os três momentos a que nos referimos acima são, na verdade, três formas diferentes de dizer que o poeta não pode mais viver sem o amor de sua amada. E o andamento da canção culmina com sua declaração final:
                       
      “só sei viver
       se for por você”

Ele se dirige às pessoas que, como ele, sofrem de uma perda amorosa, ou que cavalgam na dor e na tristeza de não serem correspondidas, ou àquelas que vivem esperando, e essa espera faz doer mais porque a solidão aumenta:
                       
               "e enfim de tudo que há na terra
            não há nada em lugar nenhum
              que vá crescer sem você chegar
longe de ti tudo parou
          ninguém sabe o que eu sofri”

A música nos faz refletir sobre este sentimento inexplicável, que só os poetas conseguem definir satisfatoriamente. Quando lemos um belo poema sobre o amor, ou quando escutamos uma música como esta de Djavan, nos sentimos arrebatados, porque é como se finalmente tivéssemos encontrado as palavras certas, era assim que queríamos dizer. E, às vezes, nos deparamos com um espelho: o poema ou a música acaba retratando-nos, trazendo-nos lembranças, relatando nossas experiências e possibilitando novas, potencializando, sobretudo, nossas vidas. É por isso que a arte tanto quanto o amor são imprescindíveis. E sempre valerá a pena correr o risco.

                           



sábado, 17 de maio de 2014

Encontro: Gavin Andrews & Jiddu Saldanha

Organizado por Thayse Panda

O Tatamirô Grupo de Poesia acredita, cada vez mais, que o trabalho em conjunto, a conspiração e a união de diversas artes é o que faz a diferença. Por isso, convidamos Clive Gavin Andrews e Jiddu Saldanha para uma parceria. Suas biografias afetivas foram feitas, respectivamente, pela artista circense Kelita Morena e o poeta Herbert Emanuel.



Clive Gavin Andrews (SIN)



Gavin por Kelita Morena:  Gavin veio de longe, mas parece que é daqui mesmo. Veio por amor e aqui ficou, bom, mais ou menos. Mente livre, corpo livre, ele vive por aí, vivendo. Ele é assim, acorda de manhã nem sempre no mesmo horário, abre a porta lateral e vê o movimento, aí caminha, vai ao vizinho tomar um café, se embala na rede e conta as novas. Aí, conversa com os cachorros e vai trabalhar, com seu capacete amarelo inconfundível e sua jaqueta. Vai de moto, porque o carro nunca funciona. Pra onde ele vai? Depende... Pode ser bem aqui, ou no estrangeiro, mas parece que ele tá sempre lá, com seu olhar em todo lugar. O seu trabalho é sua arte, sua vida. Está sempre com suas lentes e seu equipamento, que já fazem parte dele. São a sua extensão, sempre juntos, como o seu relógio. Ele trabalha em um tempo próprio e um pensamento único, sempre no momento exato. Se você perguntar, ele responde, te explica, no seu idioma. Com aquela simplicidade em que vive sua grandeza de profissional, de Ser. É lindo, ver, conviver. Suas imagens estão tomadas de alma. É que você vê a essência, ele retrata, comunica. Pra ele, pro trabalho, pros amigos, ele é assim, no seu jeito de fazer parte do que ama.É assim, vive com amor.Cada parte do dia e da vida, se dedica, Tem um abraço bom e um sorriso fácil e sincero, bem grande, como ele, sua arte, seu coração e o espaço que ocupa no nosso. E ele canta. Mais Querido Amigo!

Jiddu Saldanha (PR)
cinema possível


Jiddu por Herbert Emanuel: Mímico, ator, diretor, poeta, artista plástico, contador de história, Jiddu Saldanha goza do irreparável privilégio, como diria Baudelaire, de ser ele mesmo e outros. Digo que Jiddu é multidão, um verdadeiro agenciador, um eufórico agitador de sonhos coletivos. Nossa amizade remonta à década de 90 do século passado, quando o conheci em Nova Prata (RS), no I Congresso Brasileiro de Poetas, organizado pelo poeta Ademir Bacca. Foi amizade à primeira vista, e, desde então, não nos largamos mais. Somos parceiros em vários projetos, de  poesia, de cinema e de falar besteira um pro outro.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poética do duende

para o poeta luiz gustavo pires


revendo Goya
& seus tufões-cinzas
pelo olhar de Lorca
entendo bem
os seus  duendes

entendo
que se movem
rudes   abruptos  latentes
dentro
das coisas
e da gente

entendo
que tocam, cantam e dançam
as vísceras da morte
às alvíssaras
da  vida

entendo
que se vestem
de branco  negro  vermelho:
leitoso rio, carvão, sangue espesso
e ainda o limo de todo mistério

entendo
que sob o festim
das químicas
comem sua própria pele
estilhaços de vidro
excessivo
alimento

entendo
que se arrastam
sobre o chão
com suas asas de faca oxidada
suas vozes de sombra
suas gulas de sal

entendo
que espremam limões
na madrugada
para que nenhum vivo
ou morto traga
sob seu pulso
o gosto da menina pobre
coberta de musgo

revendo Goya
& seus tufões-cinzas
pelo olhar de Lorca
entendo bem
a sua recusa:
das luzes do anjo
das formas da musa

herbert emanuel


Escrevi este poema a partir da leitura do belo escrito de Lorca em que ele pensa poeticamente "o espírito oculto da dolorida Espanha" a partir da imagem do duende, comparando e estabelecendo diferenças entre esta e as imagens do anjo e da musa.  A presença do duende como metáfora de uma força pulsante  criadora  presente na arte espanhola  é, segundo Lorca, dominante, muito mais do que as imagens do anjo ou da musa.  Ou como diz o poeta andaluz: "Anjo e musa vêm de fora; o anjo dá luzes e a musa dá formas (Hesíodo aprendeu com elas).  Pão de ouro ou prega de túnicas, o poeta recebe normas no bosquezinho de lauréis.  Ao contrário, o duende tem que ser despertado nas últimas moradas do sangue." Ele vem por baixo, pela planta dos pés, diz ainda Lorca. Esse texto do Lorca me fez revisitar as pinturas negras do Goya, que são maravilhosamente assombrosas. E saiu este poema, que intitulei "Poética do duende", e quis dedicá-lo ao poeta Luiz Carlos Pires, porque acho que a sua poesia está entranhada de duende de que fala Lorca.



Excepcional o texto do Lorca, você pode encontrá-lo no site da revista modo de usar (excelente revista de poesia):
http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/04/teoria-e-pratica-do-duende-de-federico.html

Vale a pena ver as pinturas de Goya:
http://www.taringa.net/posts/arte/6841793/Las-Pinturas-Negras-de-Goya-Completas---Arte-Sublime.html