Quem sou eu

O Tatamirô Grupo de Poesia é um grupo amapaense de declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovocovisuais. Criado em Abril de 2009, o Grupo nasceu do desejo de dizer Poesia às pessoas. De colocar a voz a serviço da Poesia. De falar as coisas do mundo de forma diferente.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Por um postropicalismotranscibernético

Por Herbert Emanuel

Para o Movimento Circuito Fora do Eixo e, em especial, aos amigos Otto Ramos e Heluana Quintas

Não existe atitude mais anti-tropicalista do que endeusar o tropicalismo, transformando-o numa espécie de cover do próprio tropicalismo (tipo cover do Raul, do Legião Urbana, do Cazuza, etc.). Por quê? Porque aí não há criação, somente imitação repetitória. A atitude tropicalista é, ao mesmo tempo, antropofágica e tecnológica, pois soube devorar dois grandes movimentos da cultura brasileira: a antropofagia oswaldiana e o Concretismo. Se o primeiro propunha, a partir de uma re-leitura ética, estética e antropológica das nossas “origens” culturais, desconstruir toda uma metafísica da identidade cultural centrada no ideário branco-europeu-cristão, incorporando (e essa palavra é muito apropriada), canibalisticamente, nossa porção indígena como forma de resistência a essa cultura branca dominante; o segundo propõe uma desconstrução da linguagem poética tradicional, incorporando, oswaldianamente, as próprias conquistas tecnológicas da civilização ocidental, flertando criativamente com a ciência, com a música popular e de vanguarda- Werbern, Stockhausen,Pierre Boulez, John Cage - com as artes plásticas – Helio Oiticica, Mira Shendel, Lygia Clark - estabelecendo um diálogo instigante com estas linguagens.
O próprio Caetano Veloso musicou alguns poemas dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos: Pulsar, deste último, e um trecho do poema Galáxia, do primeiro, só pra citar estes dois. Tenho um vídeo em que aparecem Caetano Veloso, Arrigo Barnabé e Péricles Cavalcante, na casa do Augusto de Campos, falando de música e poesia, o Péricles Cavalcante tinha acabado de musicar o trecho de um poema do poeta inglês John Donne (1572-1631), com tradução do Augusto, que virou um poema-canção lindo: “Deixe que minha mão errante adentre,/Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre./Minha América! Minha terra à vista (...)” O Tropicalismo devorou tudo isso, fez uma geléia geral, explodiu de vez as fronteiras entre o popular e o erudito, a cultura de massa e a cultura popular, o mau gosto e o bom gosto, propondo uma cultura mutante, misturada, mestiça, berimbau com guitarra elétrica, parabolicamara y otras cositas mais, portanto, fora de qualquer esquema conceitual binarizante, de qualquer lógica disjuntiva, tipo certo ou errado, branco ou preto, afirmando outra lógica, conjuntiva: isto e aquilo e aquele outro. Nada mais anti-tropicalista, portanto, do que pensar certos temas como de autoria, direitos autorais, utilizando-se de velhos conceitos-chavões binarizantes.
Na sociedade contemporânea, chamada de pós-moderna, pós-utópica, pós-vanguarda, por alguns autores, as tecnologias digitais operaram uma verdadeira revolução na nossa maneira de ver-pensar-sentir as coisas, que esses velhos conceitos criados no auge da modernidade industrial não dão mais conta. Filósofos como Foucault, Deleuze, Michel Serre, Pierre Levy, entre outros, produziram toda uma reflexão interessante sobre isso. Foucault, por exemplo, vai falar de uma morte do sujeito, entendendo-o como um discurso construído pela modernidade nascente, de herança cartesiana. Deleuze vai propor uma filosofia das multiplicidades e da diferença como oposição à filosofia tradicional centrada na idéia de unidade e identidade de matriz platônica e também cartesiana. Já Michel Serre, muitas das suas contribuições para a reflexão sobre a contemporaneidade, foi pensar o conceito de rede para além de sua dimensão puramente topológica; para este filósofo, ela é fundamentalmente ontológica. Uma rede é – segundo ele - formada num dado instante por uma pluralidade de pontos ligados entre si por uma pluralidade de conexões. E nenhum ponto é privilegiado em relação a outro, o que faz com que ela tenha múltiplas entradas. Como Foucault e Deleuze, Michel Serre também desconstrói toda uma filosofia centrada na imagem de um sujeito legislador, fruto também do cartesianismo.  Em oposição a essa imagem, o filósofo propõe sua filosofia mestiça, arlequinada. “(...) Frente a uma filosofia crítica, marcada pelo ideal de purificação, Serres afirma uma filosofia mestiça, marcada por uma prática híbrida. A uma ontologia dualista, dividida entre o sol e a terra, Serres propõe uma ontologia monista da mestiçagem. O lugar mestiço não é, para Serres, um meio-termo entre dois pontos, entre o certo e o errado, o sujeito e o objeto. Ele é, antes, o mundo em torno de nós, é um meio que ocupa a totalidade do volume no qual vivemos. A filosofia de Serres afirma a inclusão do mestiço em nosso mundo, mestiço que fundamenta as nossas práticas, as nossas ciências, o nosso ambiente.”¹ E, acrescento, que nos possibilita pensar a nós mesmos por dentro dos inteiramente outros.
Aqui, vale mencionar também o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros, com a noção de perspectivismo indígena que problematiza de certo modo os conceitos de animalidade, humano e cultura, criados pelas sociedades ocidentais. Para mim, Viveiros é um dos grandes pensadores da atualidade, que defende inclusive uma produção colaborativa, através da ferramenta wiki, via internet, não-autoral-identitária. “A ideia – diz – é produzir uma intertextualidade, sintagmática, ou horizontal, no lugar da intertextualidade usual, paradigmática e vertical, do texto autorado e publicado, em que o nome do autor vem no começo, a bibliografia no fim, e as aspas encerram os outros, não o eu. O que estamos buscando – continua - é uma espécie de hipertexto, e não apenas no sentido usual do termo, onde essa organização seja posta para derivar e variar: enlouquecer as aspas (adorei isso!), em certo sentido. Um princípio construtivo desse hipertexto é o princípio hermenêutico clássico segundo o qual todos os escritores que tratam do mesmo objeto são o mesmo escritor.”² E acho que isso se aplica também a outros campos: na música, nas artes plásticas, no teatro, etc. Compartilho também dessa busca, considero-a fundamental para realizar o agenciamento dos sonhos coletivos. Com a produção colaborativa, por exemplo, a arte pode deixar de ser uma solução interpessoal e tornar-se uma perspectiva para todos. Compartilhar informações, conhecimentos, saberes, não retê-los nunca, deixar fluir sempre, horizontalmente, transversalmente, estar aberto aos devires, aos fluxos do desejo criativo, para além de processos de individuação, encalacradamente egóicos, narcísicos (eu! eu! eu! eu! eu!), constitui pra mim uma atitude singularmente tropicalista, ou pós-tropicalista, ou ainda transpostropicalistacibernética.
O filósofo francês Pierre Levy é outro que afirma que a interligação de pessoas, através de tecnologias da inteligência como a internet, por exemplo, faz com que a troca de experiências e conhecimentos se torne algo mais dinâmico. As infovias constroem, de forma muito rápida, novos e múltiplos caminhos, antes impossíveis de serem trilhados. Deixamos de ser meros espectadores passivos para nos tornarmos co-autores, parte integrante ativa do processo de criação. E não se trata de fazer uma apologia desvairada dessas novas tecnologias, mas de reconhecer sua importância e influências - boas e más - nas nossas vidas. Para aqueles que acham que o mundo virtual solaparia completamente o real, o próprio Lévy afirma, em seu livro Cibercultura, que “assim como o cinema não substituiu o teatro, mas constituiu um gênero com sua tradição e seus códigos originais, os gêneros emergentes da cibercultura como a música tecno ou os mundos virtuais não substituirão os antigos. Irão acrescentar-se ao patrimônio da civilização enquanto reorganizam, simultaneamente, a economia da comunicação e o sistema de artes”³.
Existem hoje movimentos que, no meu modo de ver, estão agenciando processos altamente criativos neste mundo cibernético, um deles é o Fora do Eixo, com suas diversificadas frentes, que são, entre outras coisas, verdadeiras máquinas de guerras, no sentido deleuziano, contra as formas tradicionais de se pensar, fazer e gerir a cultura, e com proposições interessantes para os próprios gestores governamentais. Neste aspecto, estes têm muito a aprender com a moçada do Fora do Eixo, principalmente o compromisso coletivo, democrático, com a cultura, sem clientelismo, personalismo, puxa-saquismo e politicagem que, infelizmente, caracteriza a prática de muitos desses gestores. O que me faz feliz é saber que aqui, nestas plagas meiomundianas, esse movimento existe, sob a gestão compartilhada do Coletivo Palafita, e está se fortalecendo, com suas pulsações éticas, estéticas e políticas do desejo como potência de mudança, de transformação, de vida, de devir-revolucionário. Uma postura postropicalistatranscibernética passa necessariamente por esses processos de subjetivação e singularização capazes de resistir às variadas formas de controle e domesticação da sociedade em que vivemos.
Para finalizar, algumas considerações sobre o próprio texto. Propositadamente, o escrevi usando e abusando de alguns autores que gosto, pensando com eles, às vezes até acelerando ou desacelerando seus conceitos. Toda leitura é uma perspectiva, de olhares, vibrações, intensidades, linhas de fuga. Nenhuma verdade a ser dita, pronunciada definitiva e metafisicamente, mas um território nômade a ser trilhado onde a aventura do pensamento se afirme plenamente como metamorfose ambulante. (Desde os tempos de Raul!). Uma das grandes lições de Foucault: pensar com é melhor do que pensar sobre, pois nos livra da presunção e da arrogância. O título também é proposital. Uma brincadeira, com sérias referências. A primeira delas diz respeito ao binômio modernidade versus pós-modernidade (alvo de muitas polêmicas conceituais). Outra é que lembrei, ao pensar um titulo para este texto, do poeta suíço Blaise Cendrars, com seu poema “A Prosa do Transiberiano”, Cendrars esteve no Brasil na década 20, conheceu os modernistas brasileiros, entre eles, Oswald de Andrade, este antropofagista, inclusive, o influenciou bastante.  Se a prosa-poema transiberiana de Cendras foi uma das expressões dos “maquinismos em fúria”, pra usar um verso do futurista Álvaro de Campos-Fernando Pessoa, do auge da modernidade industrial e das vanguardas artísticas nascentes, hoje, podemos vislumbrar o surgimento de uma prosa-poema transcibernética, produzida colaborativamente, como expressão da viagem criativa pelas múltiplas infovias da web. A viagem postropicalistranscibernética. Para os aventureiros, os espíritos libertos, ela é uma experiência extremamente enriquecedora, proporcionando bons e belos encontros!

Notas

¹O Conceito de Rede na Filosofia Mestiça. Publicado em: MORAES, Marcia Oliveira. O conceito de rede na filosofia mestiça. Revista Informare, v. 6, n. 1, p. 12-20, 2000. Disponível em:http://www.necso.ufrj.br/MM/O%20Conceito%20de%20Rede%20na%20Filosofia%20Mestica.htm
² Eduardo Viveiros de Castro/organização Renato Sztutman . Rio de janeiro: Azougue, 2008, p. 192.
³ Pierre Lévy. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999, p. 137.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vonnegut e o tremor de tempo

Por Ezequias Corrêa




Durante as férias dos meses de janeiro e fevereiro, comprei alguns livros em uma loja no centro de Macapá, entre esses livros que, diga-se de passagem, estavam com preços bem acessíveis e, portanto, cabíveis ao meu parco orçamento, encontrei uma obra fantástica de um autor até então desconhecido de mim e de grande parte de meus amigos leitores. O livro do qual estou falando é “Timequake” do escritor Estadunidense Kurt Vonnegut. É uma das últimas produções literárias de Vonnegut - falecido no ano de 2007 em circunstâncias trágicas.
O romance conta a história de um tremor de tempo ocorrido em 13 de fevereiro de 2001 que fez com que o universo parasse de se expandir e regredisse até o dia 17 de fevereiro de 1991. Ao contrário da maioria dos livros e filmes de ficção científica em que os personagens voltam no tempo para mudar seus destinos, em “Timequake” Vonnegut foge a esse clichê e obriga os seus personagens a fazerem as mesmas coisas que tinham feito antes. Dez anos de um completo flash Bach.
         O texto de “Timequake” é recheado de referências autobiográficas, desde o massacre da cidade de Dresden, em 1945, que o autor presenciou, até a morte de seus dois irmãos, Bernard e Allie, e da primeira esposa, Jane, vítimas do câncer. Os principais acontecimentos da vida de Kurt Vonnegut se misturam com o cotidiano dos personagens Kilgore Trout (alter ego do escritor), Monica Pepper, Zoltan Pepper e Dudley Prince; o próprio Vonnegut se torna uma personagem, na medida em que utiliza o enredo para rememorar fatos marcantes de sua existência, com um tom saudosista de quem já está se despedindo.


Considero Kurt Vonnegut um escritor de excelência e que, sem dúvida, recebeu a influência de mestres da literatura moderna como Aldous Huxley, George Orwell e outros, todavia a crítica ao progresso tecnológico por parte de Vonnegut é amenizada pelo tom irônico e bem humorado de sua escrita, isso o difere dos escritores acima citados. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

EU e ELE



Ele palmilhava meus pés com hálito de chuva. Todas as palavras estavam caladas. Zuniam sílabas imprecisas. Eu, freneticamente imóvel as tragava e as devolvia a panos que aconselhavam tórrida escravidão. É como se me adivinhasse logo dividida em hemisférios. Isso me fazia transpirar uma resina inflamável e incontida. Ele, inclemente, me subia, aos poucos, ramificando pernas. Ali também cultivava chuva. Aquietei-me incolor. Mais rápido do que imaginei, a língua anelou-me as hastes. E enquanto ele me escavava com os lábios eu germinava o falo bem na palma da minha mão.

Prolonguei a respiração o quanto pude. Esse intervalo foi o suficiente para que eu levitasse invisível aos olhos de meu homem. Dali também bebia vagarosamente cada um de seus gestos. Atada a volúpia, logo me certifiquei que nenhum de meus cálculos era exato. Constatei também que aprendemos – eu e ele – muito com os animais não hierárquicos. Não havia macho e não havia fêmea. Só nós, nus em lã, feito forças armadas convulsivas e desordenadas. Depois voltei ao rijo esconderijo de nossos corpos.

Movíamo-nos em ziguezagues repetidos e tudo era contrário ao direito, ainda bem. Nossa ideia de justiça era sua própria abstração. Também éramos imortais naquele instante. Derivados do extinto, comprimíamos, um a um, os mais remotos poros e, assim, passeávamos famélicos e tesos.

Todas as mensagens estavam postas. Acessamo-nos. Medievais. Inexatos.

Do fole veio o sopro. A cavidade ventilada precipitou-me ao abismo dele. Latejaram os rios. Gradualmente, pernoitei, enquanto ele palmilhava meus pés com hálito de chuva.

Ruben Bemerguy

quarta-feira, 14 de março de 2012

A ave pousa entre nós: Íbis Amazonas, o poeta



Poeta Íbis Amazonas, o primeiro à esquerda


        Ibis se escreve de vários pássaros: ibis ermitão, do norte da África; ibis vermelho, das Américas; ibis sagrado dos antigos egipcios, representado nos murais pintados nos túmulos e templos como uma espécie de semideus: metade homem, metade pássaro.Dos confins da África ao topo da Amazônia, nosso Ibis também se escreve de pássaro:

me toco
mas não sinto a pele
sobre os ossos
eu sou apenas tudo
que sobrou
do pássaro

uma pena sobre o asfalto. 1

Íbis Amazonas nasceu em 20 de Junho de 1965, na antiga base aérea do município de Amapá – estado do Amapá. A localidade é distante da capital e está situada bem no meio da mata que, já naquela época, era um cemitério na floresta. Íbis nasceu impregnado dessas forças anímicas da natureza. Último filho de uma família numerosa, a mãe, Alba, escolheu o nome retirado de um romance, onde a personagem íbis era um ser de muita luz. O pai completou com Amazonas por causa do rio, para dar dimensão ímpar ao pequeno ser. Anos mais tarde, o punho do poeta revelou a grandeza desse nascimento.

“Com bizarrosdentes e olhoserpente
o filhoflorferida
de uma alba clara  manhã
poematizada
a inútil imensidão
dessas selvas
selvagens.”2

Aos cinco anos deixou a “Selva Selvagem” e veio morar na capital. Por pouco tempo, pois, aos sete, foi enviado à cidade de Belém para estudar. Ficou dos 12 aos 13 anos em São Paulo e dos 17 aos 18 residiu em Belo Horizonte. De volta a Belém, ingressou na UFPA para cursar Engenharia Química. Em pouco tempo mudou de curso e se transferiu para Geologia, experimentando-o também por breve temporada. Em seguida, abandonou definitivamente a vida acadêmica e se dedicou exclusivamente a sua bem-amada poesia. Retornou ao velho ninho e passou a morar novamente no município de Amapá. Lá construiu seu primeiro agrupamento de poemas. São 20 fragmentos imbuídos de Charles Baudelaire. O ano é 1988.
Em 1991, devidamente entregue ao duro ofício de lapidar palavras, Íbis compôs o TAES ALMANJARRAS, pequeno livro de inúmeras referências e construções. É um passeio pela Amazônia, mesclado de influências modernas: Pound, Joyce, certamente eram suas leituras daquele momento.
O trabalho seguinte não se encontra datado. Chama-se SEXLUCIFELINO – 10 poemas num sonho alucinado. São poemas eróticos, onde a fêmea destila seus encantos. São textos secos e ao mesmo tempo plenos de lirismo.

“Faço versos
de sonhos
in
sanos

e c
a
i
o
sobre seu corpo
como
as avencas
no
chão” 3

No agrupamento intitulado HYPNOS, encontram-se 9 poemas que foram bastante aproveitados na única inserção da sua escrita fora da poesia. É um texto para teatro denominado Hiléia Desvairada, escrito em parceria com o poeta Herbert Emanuel. Em 1992 vieram dois agrupamentos divididos em dois volumes: LESMA LUNARES e LESMA LUNARES – Parte II. Em oposição ao HYPNOS, onde os textos são longos, Íbis passa a adotar uma linguagem cada vez mais concisa, mais enxuta. Entretanto, os poemas parecem plenos do olhar que recria as imagens recebidas.

“do oco escuro
borboletas brotam do cigarro
e a cigarra encantada estoura
seus pulmões de tanto
rir” 4

A parte das seleções arrumadas em blocos com seus respectivos títulos, Íbis escreveu poemas esparsos, alguns publicados em jornais, outros enviados a amigos. Em 1994, seu último agrupamento chama-se DURO ARTEFATO. O título já revela a crise, a dificuldade em cuidar dessa tarefa escolhida ou imposta pelos deuses.

“A poesia não ensina
amar
as pedras são mais úteis
que as flores” 5

E quem era íbis Amazonas? Duas faces ele possuía. Uma para fora, para as multidões, as quais não fazia questão de agradar; e outra aos pouquíssimos queridos, para os quais deixava à mostra uma meiguice sedutora. É bastante provável que essa ave-rio não tivesse consciência dessa sutil modificação, pois que para a maioria ele estava sempre inacessível. Mas, aos poucos reservados, era suave e descontraído e a esses presenteava com sua gargalhada sonora inconfundível.
Quando o conheci, em 1984, ele ainda guardava a postura do tenista, campeão de disputadas partidas nas únicas quadras de tênis localizadas na residência oficial do governador. Porém, a inquietação já pesava em seu semblante e a sede das palavras era marcada por leituras vorazes. Os poetas digeridos por ele eram ritualisticamente canibalizados e transformados em ressonâncias dentro da sua escrita. Não foram meras referências. Eram jantares e almoços com os clássicos, os malditos, os românticos, os concretos, acompanhados de “muito vinho vagabundo” 6
A história de sua pequena e significativa obra – ao todo não chegam a 100 poemas – esteve intimamente entrelaçada com suas escolhas pessoais, que a suspeita de muitos, não foi uma máscara para criar o estereotipo do poeta maldito. O Íbis Amazonas daquele momento estava tão marcado por sensações inumanas, que tentar classificá-las seria diminuí-las e empobrecê-las. O encontro com essa singular visceralidade pode ser feito por meio da leitura de seus poemas, no manuseio de sua escrita, construída em apenas seis anos. De 1988 – primeiro agrupamento de poemas – até 1994 – últimos registros encontrados, muitos fatos ocorreram na sua vida: casamento, filhos, acidente grave no qual perdeu parte de massa encefálica; internação em uma comunidade, no Rio de Janeiro, para curar sua dependência de substâncias tóxicas.
Para quem recebeu o nome Íbis Amazonas, duas palavras tão transbordantes de significados, certamente não passaria a existência despercebido. E quem sabe – talvez somente as parcas poderão revelar – o que ainda lhe reserva o destino. Ele atualmente mora em Belo Horizonte, onde busca lições iniciantes para alçar um novo vôo, ou como todo rio, ir ao encontro do mar... 
                    Zeniude Pereira*
                                                               

NOTAS

1.  AMAZONAS, Ibis. Taes Almajarras.Macapá, 1991 (texto datilo-
      grafado).
2.  Idem.
3.  AMAZONAS, Ibis. Sexlucifelino. Macapá, s/d  (texto datilo-
      grafado).
4.  ______________. Lesma-Lunares. Macapá, 1992 (texto datilo-
      grafado).
5.  ______________. Duro Artefato. Macapá, 1994 (texto  manus-
      crito).
6.  Expressão bastante freqüente nos seus poemas.

* Zeniude Prereira foi uma das produtoras teatrais que mais lutou pela arte cênica no Amapá. 
. Faleceu em 2007. Apaixonada pelo teatro, deixou várias sementes plantadas nesta terra,
e vive no coração daqueles que a admiram.

Ibis Amazonas, poeta amapaense, nascido em 1964, dono de uma poética singular, influenciado por grandes poetas nacionais e estrangeiros, sua voz transcende os bairrismos e regionalismos muito frequentes na poesia amapaense.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

RES IST E selecionado no Digitália

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A Herbert Emanuel Valente de Oliveira
Ref.: Aprovação de Trabalho no Digitalia – Festival/Congresso de Música e Cultura Digital  


Prezado Sr.,

A Comissão de Avaliação de Trabalhos do “DIGITALIA – Festival/Congresso Internacional de Música e Cultura Digital” tem o prazer de informar que seu trabalho "INSTALAÇÃO multimídia POÉTICA RES IST E" foi aceito. A comissão de avaliação se sente honrada com o envio de sua proposta e espera poder contar com a sua presença. Para fins de melhor organização dos trabalhos, solicitamos que confirme, até o dia 25.01.12, sua participação no Digitalia, preenchendo o formulário disponível em https://digitalia.wufoo.com/forms/p7x1p5/ . 

O Digitalia irá reunir, em Salvador, de 1o. a 5 de fevereiro de 2012, diversas iniciativas que relacionam o campo da música às novas tecnologias da informação e da comunicação, notadamente aquelas conformadas pela chamada Cultura Digital. Sob o tema “Celebrando a Primeira Década da Música Online”, o evento se constitui num fórum que articula artistas, estudiosos, produtores e o público em geral. 

Desde já, agradecemos a atenção e colocamo-nos à disposição para eventuais esclarecimentos. Aguardamos a sua chegada!
Cordialmente,
Comissão de Avaliação do Digitalia



Realização

Rede Audiosfera

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
INSTITUTO DE HUMANIDADES, ARTES E CIÊNCIAS PROF. MILTON SANTOS
Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade
UFRB - FGV/CTS - UNEB - UNICULT

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Embriagai-vos! Nesta temporada: "Embriagai-vos!"

É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do tempo que vos abate e vos faz perder para a terra, é preciso que vos embriagueis sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor, contanto que vos embriagueis.
Charles Baudelaire



A relação dos poetas com a embriaguez remonta, para ficarmos apenas na tradição ocidental, aos gregos e romanos: os cantos em louvor ao deus Dionísio, às farras e orgias descritas no Satyricon de Petrônio. Fora desta tradição, vale citar o poeta persa Omar Khayyam, que cantou em seus versos as mulheres e os vinhos. No romantismo, a apologia das bebidas etílicas como o vinho, o absinto – esta, inclusive, foi considerada a bebida musa de muitos poetas no século XIX - e de certas drogas como o haxixe e o ópio, serão elementos constitutivos deste movimento que pregava a vida boêmia como condição existencial.  Podemos enumerar uma galeria imensa, em diferentes épocas, de poetas que levaram uma vida regada à bebida: Villon, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Álvares de Azevedo, Charles Bukovski, Vinícius de Moraes, Paulo Leminski, Roberto Piva, Isnard Lima, Cruz e Souza, Torquato neto...

"Embriagai-vos!" no II Encontro Amapaense de Estudantes de Letras (EAPEL) - outubro de 2011

O Tatamirô Grupo de Poesia faz, através da Performance Poética “Embriagai-vos”, uma homenagem a muitos desses geniais “papudinhos” da literatura universal.

"Embriagai-vos!" no Quebramar 2011 - dezembro de 2011


Ficha técnica

Concepção: Tatamirô Grupo de Poesia
Elenco: Herbert Emanuel, Karen Pimenta, Ivan Ibarra, Adriana Abreu
Participação especial: Deyse França e Alexandre Avelar
Pesquisa multimídia: Paulo Rocha e Herbert Emanuel
Edição e projeção de imagens: Paulo Rocha
Cenografia: Paulo Rocha e Adriana Abreu
Figurino: Ilce Rocha e Paulo Rocha
Iluminação: Marina Beckman
Contrarregras: Missilene Cabral e Ezequias Corrêa

Quem somos?








Herbert Emanuel – 48 anos, poeta e professor de filosofia. Livros publicados: “Nada ou quase uma Arte” (1997 e 2009), “Do Crepúsculo ao Outro Dia”, com Jiddu Saldanha (2005), “Macapá – a Capital do meio do mundo”, com Adriana Abreu pela Cortez Editora (2008 e 2010), RES (2011) e “Seu Modo de arranjar as Flores” (2011). Integrante do Pium Filmes é o violonista e compositor do Tatamirô.

Adriana Abreu – 38 anos, professora de Literatura, declamadora do Tatamirô, há muito tempo vem trabalhando com seus alunos a criação de performances poéticas teatrais, como veículo para o estímulo à leitura. Há mais de 15 anos, realiza oficinas em diversas instituições do Estado, tendo sempre como foco a relação Literatura, Teatro, Arte, Vida e Cidadania. Integrante do Pium Filmes.

Paulo Rocha – 25 anos, artista plástico e acadêmico dos cursos de Letras (UEAP) e de Artes Visuais (UNIFAP). Integra Pium Filmes – Núcleo do Cinema Possível no Amapá. Lançou, em parceria com o poeta Herbert Emanuel, o livro “Seu Modo de Arranjar as Flores”.

Ivan Alexander Ibarra Vallejos – 28 anos, chileno, músico, licenciado em História, gaitista, já participou de diversas bandas no Brasil e no Chile. Integrante das bandas amapaenses Beatle George e Blues UP! e do Tatamirô Grupo de Poesia.

Karen Pimenta – 23 anos, jornalista, produtora cultural e violoncelista. Co- Idealizadora do Festival Quebramar. Coordenadora de Comunicação do Coletivo Palafita, Ponto de Articulação Nacional do Circuito Fora do Eixo e regional em prol de políticas públicas para cultura destinadas à Amazônia.


Deyse França - 27 anos, atriz, historiadora e arqueóloga. Atuou nas seguintes encenações apresentadas em Macapá (AP): "Quem matou o Curupira?", "Made In" - esta, contemplada com o prêmio Myriam Muniz. É também produtora cultural pelo Coletivo Palafita.








Marina Beckman25 anos, atriz, iluminadora, arte-educadora e produtora cultural. Atuou nas montagens, feitas em Macapá (AP), de"Esperando Godot", "Ensaio ou saio", "Cerejas amargas", "Quatroelementos". É a iluminadora dos espetáculos "Era um vez: três presentes pra vocês", "Cordel do amor sem fim" - espetáculo teatralque circulou toda Região Norte e parte do Nordeste pelo projetoSESC-Amazônia das Artes. Participou da Bienal da UNE em Salvador-BA,Mostra Cariri-CE. Atualmente, ilumina a performance "Embriagai-vos!"do Tatamirô.



Alexandre Avelar – 28 anos, músico, formado em Ciências Sociais, componente das bandas “Mini Box Lunar” e “Samsara Maya”, integra o núcleo durável do Coletivo Palafita- frente do Circuito Fora do Eixo-AP, toca craviola no recital “Embriagai-vos” do Tatamirô Grupo de Poesia. 


Missilene Cabral32 anos, professora de Ensino Fundamental, trabalha com apresentações de fantoches - sempre envolvida em programações sociais que são voltadas para o público infantil nos bairros de periferia da cidade – é contrarregra do Tatamirô Grupo de Poesia.



Ezequias de Souza Corrêa (Zequinha) – 27 anos, concluinte do Curso de Letras da Universidade do Estado do Amapá, é declamador do Tatamirô e contrarregra no recital “Embriagai-vos!”.


 






Repertório




Poema: Embriagai-vos de Baudelaire
Poema-canção: Bebo o vinho do teu corpo (Pablo Banazol- letra/ Herbert Emanuel-música)
Poema: Bacanal de Manuel Bandeira-I estrofe
Poema: Oda al vino de Pablo Neruda
Poema: Melhor vinho de Mario Quintana
Poema-canção: Convite Báquico de Herbert Emanuel
Poema: Álcool de Mário de Sá-Carneiro
Poema-canção: Autopsicografia (Fernando Pessoa-letra/Herbert Emanuel-música)
Canção: Samba para Vinicius de Chico Buarque e Toquinho
Poema: Poética I de Vinicius de Moraes
Poema-canção: Despaupério de Torquália de Herbert Emanuel
Poema: Poética II de Vinicius de Moraes
Poema-canção: Haicagem de Herbert Emanuel, Toni Terra e Paulo Leminsky
Poema: Escrita na agenda de Herbert Emanuel
Poema-canção: Ulisses Revisitado de Herbert Emanuel
Poema: Bacanal de Manuel Bandeira-IV estrofe
Poema: Soneto del vino de Borges
Poema: Vinhos e livros de Marta Cardoso
Poema-canção: Vida breve, Arte longa (Herbert Emanuel-música/ Omar Kayyãm - Heródoto – Fernando Pessoa – letra)

Informações Compactadas